Percepções sobre o II Fórum de Economia Restaurativa e Circular

O encontro foi enriquecido com as vivências de representantes de povos tradicionais: indígenas de duas etnias e líderes quilombolas

Nos dias 14 e 15 de fevereiro, cerca de sessenta pessoas de diferentes cidades do país se reuniram no Seminário Betel Brasileiro, em João Pessoa, para o II Fórum de Economia Restaurativa e Circular. Foram dois dias ricos de reflexão, discussão, apresentação de boas práticas e troca de experiências relacionadas à prática da justiça social e do cuidado com o meio ambiente.

A diversidade de pessoas e de experiências foi um dos destaques do encontro. Além de cristãos evangélicos, estiverem presentes cristãos de outras vertentes como o Frade Franciscano Rodrigo Peret, que integra a Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB, e o jovem Magno Almeida, representante do Movimento Católico Global pelo Clima.

Além de reflexões teológicas conduzidas por Bebeto Araújo, Timóteo Carriker, Marcos Custódio, Luíz Felipe Xavier e José Marcos, o encontro foi enriquecido com as vivências de representantes de povos tradicionais, tais como o indígena Paulo (Terena), Marilene Padinha (Potiguara) e líderes de comunidades quilombolas, como Josué Gomes da Silva, 62, do sertão pernambucano.

Confira alguns relatos e percepções sobre o encontro:

“Foi um espaço dinâmico, com uma diversidade muito interessante de experiências e um equilíbrio frutuoso entre reflexão e as apresentações das boas práticas. O fórum abordou um aspecto muito importante da questão ecotoeológica, tentando fazer a conjugação entre o planeta em crise, devido ao nosso modelo de desenvolvimento extremamente predador, e as exigências cristãs da nossa própria fé. Pude perceber alguns avanços importantes, como a articulação da teologia da criação e da redenção, e a ligação profunda da missão e do compromisso como resposta. A grande tarefa, não só dos evangélicos, é como articular e ampliar isso dentro das igrejas. O crescimento da igreja evangélica é muito grande, então tem uma grande fatia da sociedade que pode dar uma resposta positiva. Mas acho que estamos no caminho, à medida em que se conjuga muito bem as ações com a reflexão, como resposta ao apelo às boas novas de Jesus. Outro aspecto importante é como nós podemos nos articular como cristãos, de forma macro. Pois os impactos da injustiça, que causa o desequilíbrio do sistema de vida no planeta, não escolhe denominação, nem religião. Então, é uma oportunidade muito grande para caminharmos juntos diante dessa necessidade da sociedade.” Rodrigo Peret, frade franciscano, integrante da Rede Igrejas e Mineração e da Comissão Ecologia Integral e Mineração da CNBB.

“O que está sendo mais legal é a diversidade do grupo. Tem pessoas de diversos lugares, classes e ideias diferentes em um mesmo ambiente. Para lhe dar com essa diversidade é preciso certa maturidade. É uma representação do nosso país, das nossas igrejas e do mundo, que está polarizado. Aqui também há uma polarização nas ideias. O grande desafio é como a gente pode se unir para uma causa que é de todos. Se não houver união, a gente não vai conseguir tratar a questão. Aqui é uma excelente oportunidade para colocarmos em prática o que é necessário para o mundo: diálogo e união. Mas acho que só é possível, se houver humildade. Ideias boas muita gente tem. Mudar o mundo muita gente quer, mas humildade é uma característica que está cada vez menos presente nas igrejas e no mundo. Ninguém quer saber a opinião do outro, todo mundo quer expor a sua. Aqui eu conheci pessoas que são humildes e isso me dá esperança, pois onde tem gente humilde, tem Deus perto – ele está perto dos quebrantados e dos humildes. Em um ambiente assim e com essas condições, dá para tirar coisas práticas, projetos, ideias e caminhos, feitos em conjunto, de cristãos humildes que não se acham os donos da verdade, mas que acham que podem aprender uns com os outros.” Mateus Ortega, assessor da C40 na Secretaria de Sustentabilidade de Salvador, Bahia.

“O que mais me impactou foi a comunhão e a vontade de fazer a diferença. Não a diferença do senso comum, mas de fazer a gente se questionar qual a raiz do problema, que está ligada à forma de produção e exploração da natureza e da classe trabalhadora pobre – a mais afetada com as mudanças climáticas. É como o Papa Fracisco diz na Laudato Si: ‘Ouvir o grito da terra e ouvir o grito dos pobres’.” Magno Robério G. Almeida, Sertão do Pajeú, Pernambuco, representante do Movimento Católico Global pelo Clima e da Juventude Franciscana do Brasil.

“O fórum está sendo muito importante. O tema não só é urgente, como necessário para a nossa reflexão. Uma reflexão que ultrapassa o ambiente teológico, que por muitas vezes nos alienou dessa questão. O fórum nos leva a refletir sobre nosso pecado de omissão, pouca reflexão e pouco cuidado, e para além disso, a nossa pouca incidência pública, na questão do profetismo em denunciar coisas que são gritantes. Me chamou a atenção alguns que falam a partir de uma perspectiva ainda liberal, de responsabilização do indivíduo. Embora seja importante as ações no âmbito individual, estamos tratando de uma questão estrutural. Essas pessoas têm refletido, mas não entenderam o eixo da problemática. Me chama a atenção a caminhada das pessoas que escolheram as bases para esse desenvolvimento social e sustentável, e como essas ações, que parecem muito pequenas, tem impacto não só no contexto imediato, mas numa perspectiva mais ampla, de profetismo, denúncia e engajamento social.” Aline Martineles Menezes Carvalho, missionária do Ministério Ágape, Igreja Betel Brasileiro em Magabeira 7, João Pessoa, Paraíba.

Confira mais fotos do fórum aqui e aqui.

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