Como será a regeneração e restauração da Terra, segundo a Bíblia

Diz-se frequentemente que a Bíblia começa com um jardim e termina com uma cidade. Embora esta seja uma afirmação da vida urbana, ela não apresenta toda a história.

Regeneração e restauração

A terra tem um futuro no propósito redentor de Deus e isso está expresso por todo o Antigo e Novo Testamentos na frase “nova terra”, que será acompanhada por “novos céus”. O livro de Tom Wright sobre a ressurreição (The Resurrection of the Son of God [A Ressurreição do Filho de Deus]) e o comentário de Tony Thiselton de 1 Coríntios 15 (The First Epistle to the Corinthians [A Primeira Epístola aos Coríntios]) oferecem uma análise do Novo Testamento sobre o futuro. Espíritos sem corpos e uma terra desmaterializada não fazem parte da visão bíblica! Em 1 Coríntios 15 Paulo escreve sobre um “corpo espiritual” que é o dom de Jesus, o “último Adão”. A diferença entre corpo físico — nossa constituição atual — e corpo espiritual — que teremos após a ressurreição dos mortos — é que aquele é corruptível e este é incorruptível (1Co 5.42). A diferença não é de materialidade ou corporeidade!

A “nova terra” também não será desmaterializada. Haverá uma “regeneração [palingenesis] de todas as coisas” quando o Filho do Homem vier em glória, e aqueles que tiverem renunciado às coisas materiais tais como casas ou famílias ou campos por amor a Jesus os receberão de volta em grande medida quando herdarem a vida eterna. Esta visão do futuro descrita por Jesus, o Filho do Homem, é completamente terrena e materialista!

Então, lhe falou Pedro: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós? Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. (Mt 19.27-29)

Isso se repete no sermão de Pedro em Atos 3, quando ele exorta:

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade.

Esse “tempo da restauração de todas as coisas” é certamente o que Jesus e seus seguidores tinham em mente quando oravam pela vinda do reino do Pai bondoso e pela realização da vontade de Deus na terra como no céu. O céu na terra tanto é uma visão materialista que orar por sua vinda conduz naturalmente a pedir pelo pão nosso de cada dia.

Paulo explica em Romanos 5 que o primeiro Adão, mediante seu pecado e desobediência, infectou toda a raça humana, arruinou e feriu mortalmente todo o mundo. Jesus, o segundo Adão, o Filho do Homem, o Filho de Deus, feito do pó da terra, mas ao mesmo tempo vindo do céu, torna-se o meio da graça, da graça abundante, a fim de que o seu dom gratuito de perdão restaure a raça humana à retidão, à justiça e à vida eterna. A questão que continua a me intrigar é: se Paulo foi claro que, no esquema divino das coisas, Jesus era o segundo Adão, estaria o próprio Jesus consciente deste seu relacionamento com Adão?

No primeiro capítulo observamos três contextos nos quais Jesus fala de si mesmo como o Filho do Homem em relação à terra. Quanto ao significado do título Filho do Homem, estou convencido, pelo depoimento de Walter Wink em The Human Being (O Ser Humano), de que quando usava esse título Jesus estava se reportando em grande parte à imagem do livro de Ezequiel. Na primeira “visão de Deus” dada ao Filho do Homem (Ben Adam) aparece alguém assentado no trono que, significativamente, tem a forma de Adão, um ser humano (Ez 1.26). Ezequiel, o Filho do Homem, é convencido de que a visão de Adão não é outra senão o próprio Senhor!

Por cima do firmamento que estava sobre a sua cabeça, havia algo semelhante a um trono, como uma safira; sobre esta espécie de trono, estava sentada uma figura semelhante a um homem. Vi-a como metal brilhante, como fogo ao redor dela, desde os seus lombos e daí para cima; e desde os seus lombos e daí para baixo, vi-a como fogo e um resplendor ao redor dela. Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do Senhor; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava. (Ez 1.26-28, itálicos acrescentados)

A visão em Ezequiel, portanto, é de Deus em forma humana, o perfeito Adão. Quando Ezequiel diz que, repetidamente, era chamado de Filho do Homem (Ben Adam), é razoável que ele tenha pensado que o título “Filho do Homem/Ben Adam” se referia ao seu relacionamento espiritual com o Senhor, que tinha a aparência de Adão.

Eu me pergunto ainda se o próprio Jesus, quando falava de si mesmo como o “Filho do Homem” ou simplesmente como o Filho, também não estava se referindo tanto ao seu relacionamento com Adão, criado à imagem de Deus, como ao próprio Deus, cuja imagem Adão e todos os seus descendentes receberam quando foram criados. Como vimos na genealogia de Lucas, o Filho do Homem tem uma linhagem que pode ser traçada até o “Filho de Adão, o Filho de Deus” (Lc 3.38). Jesus, como Filho do Homem e Filho de Deus, é aquele que sustenta tanto a terra como o céu em sua própria pessoa.

O jardim

A renovação e a restauração de todas as coisas a que o Filho do Homem se refere em Mateus 19 são dramaticamente visualizadas em Ezequiel 36.

Assim diz o Senhor Deus: No dia em que eu vos purificar de todas as vossas iniquidades… Lavrar-se-á a terra deserta… Dir-se-á: Esta terra desolada ficou como o jardim do Éden.

O Éden de Adão é a visão do que Deus vai realizar novamente. Ezequiel vê o jardim de Adão como uma antítese dos “lugares desertos” e da “desolação” que caracterizam a terra dominada por um povo de “má conduta”, cujos feitos “não são bons” e que eram repugnantes por suas “iniquidades” e “atos abomináveis” (Ez 36.31-35). O Éden de Adão é o mundo ideal do Filho do Homem. O jardim do Éden, aquele que foi plantado por Deus (Gn 2.8), é o modelo do novo mundo vindouro, quando Deus tratará definitivamente com tudo o que corrompe o solo, profana a criação, atenta contra a aliança e que tornou necessária a cruz.

A imagem do jardim restaurado é repetida na profecia de Isaías:

Porque o Senhor tem piedade de Sião; terá piedade de todos os lugares assolados dela, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão, como o jardim do Senhor; regozijo e alegria se acharão nela, ações de graças e som de música. (Is 51.3)

O Senhor te guiará continuamente, fartará a tua alma até em lugares áridos e fortificará os teus ossos; serás como um jardim regado e como um manancial cujas águas jamais faltam. (Is 58.11)

Diz-se frequentemente que a Bíblia começa com um jardim e termina com uma cidade. Embora esta seja uma afirmação da vida urbana, ela não apresenta toda a história. A verdade é que o livro de Apocalipse nos dá a imagem de uma cidade-jardim no final. A visão da Nova Jerusalém é de uma cidade onde “o rio de água da vida, claro como cristal, flui do trono de Deus e do Cordeiro”, e “de cada lado do rio está a árvore da vida, que frutifica doze vezes por ano… e as folhas da árvore servem para a cura das nações”. A cidade celestial possui contornos do Éden e me traz à mente a declaração do Dr. Johnson de que o céu certamente terá a alegria do campo e os encantos da cidade.

Jesus e a Terra -- A ética ambiental nos EvangelhosNota
Trecho extraído do livro “Jesus e a Terra: ética ambiental nos evangelhos”, de James Jones, publicado pela editora Ultimato. Reproduzido com permissão.

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