Os povos indígenas, a pandemia e a igreja: olhares de dentro

Três indígenas falam sobre o impacto da pandemia entre os povos indígenas, as ações do governo no combate ao coronavírus e a ação da igreja neste processo

Santo Antônio do Içá, estado do Amazonas. Foi neste município, no dia 25 de março de 2020, que surgiu o primeiro caso confirmado de contaminação por covid-19 entre indígenas brasileiros. A vítima: uma jovem de 20 anos do povo Kokama que teve contato com um médico que estava infectado. Desde então, aconteceu o que muitos temiam, o coronavírus se alastrou com rapidez entre as comunidades indígenas por vários estados do país, ceifando centenas de vidas.

Segundo dados oficiais divulgados no site do Ministério da Saúde, atualizados na última segunda-feira (24/08), é de 353 o número de indígenas mortos e de 21.459 de infectados pela covid-19. O número de curas clínicas é de 15.802. De acordo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), as informações são obtidas junto a cada um dos trinta e quatro Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e são validadas pelo Departamento de Atenção à Saúde Indígena (DASI).

Mas o número de indígenas mortos e infectado pode ser muito maior, já que a Sesai não faz o atendimento e o registro dos indígenas que vivem em contexto urbano.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) denuncia e repudia o procedimento da Sesai. Por causa disso, foi criado o Comitê Nacional pela Vida e Memória dos Povos Indígenas, cujos dados incluem tanto indígenas que vivem nos territórios tradicionais quanto os que vivem em contexto urbano, que se autodeclaram e possuem laços com seu povo, como dispõe a Convenção n. 169 da OIT (ratificada pelo Brasil). De acordo com os dados da APIB, atualizados em 25/08, já são 718 indígenas mortos, 27.351 infectados e 155 povos afetados pela covid-19.

Conversamos com três indígenas sobre o impacto da pandemia entre os povos indígenas, as ações do governo no combate ao coronavírus e a ação da igreja neste processo. Confira abaixo as percepções de Keyla Conceição (Pataxó), Lindelvan Costa (Baré) e Izaias Silva (Pataxó).

Qual sua sensação diante dos números da covid-19 entre os povos indígenas?

Keyla Conceição – A sensação é de impotência e de questionamentos de como deixamos chegar a tal ponto. Como esses números parecem apenas números e não parecem pessoas com suas histórias e famílias…

Lindelvan Costa – Fico triste e tenho solidariedade pelas famílias que perderam seus entes queridos, mas sinto paz em saber que Deus é soberano, controla todas as coisas. A fé exercida em um momento de crise faz muita diferença.

Izaias Silva – Minha sensação, no primeiro momento é de tristeza junto aos familiares. E depois de descaso e marginalização, uma vez que a política de saúde indígena federal tem se mostrado indiferente.

Você já perdeu algum familiar, amigo ou alguém próximo para a covid-19?

Keyla Conceição – Graças a Deus ainda não perdi nenhum familiar ou amigo próximo, mas tenho presenciado as perdas de pessoas próximas a mim. Vejo o quanto estão sofrendo e não tem sido apenas uma morte. É o período que mais tenho visto manifestação de luto e sofrimento por não poder está perto nos últimos momentos daqueles que amam ou de viver a incerteza de que a qualquer momento nosso parente de sangue pode ser a próxima vítima, mas o sofrimento e medo do indígena não se resume aos seus parentes de sangue. Nossos parentes indígenas pelo Brasil também têm sua dor sentida e compartilhada. Sentimos a dor um dos outros, cada perda é motivo de tristeza.

Lindelvan Costa – Sim, amigos e parentes.

Izaias Silva O povo Pataxó está distribuído em mais de 40 localidades nos estados da Bahia e Minas Gerais, e há vários casos confirmados e algumas mortes.

Seu grupo, comunidade ou etnia têm tido perdas por causa da covid-19? Como vocês tem lidado com isso?

Keyla Conceição – O povo Pataxó já teve algumas perdas, tanto os pataxó da Bahia e os de Minas. O número de infectados tem crescido e tentamos conter com o isolamento. Porém, manter o isolamento tem sido difícil, faz parte da cultura indígena ficarmos juntos e irmos as casas uns dos outros.

Lindelvan Costa – Sim perdi uma tia avó. Seguimos em frente, mais uma vez a fé em Cristo. O justo jamais será abalado, mesmo diante da morte e do luto.

Izaias Silva – Na minha aldeia não, etnia sim.

>>>  Assista: O Impacto da pandemia nas comunidades indígenas <<<

Como os idosos integram o grupo de risco, vários povos têm perdidos líderes importantes e anciãos da comunidade. O que essas perdas representam para esses povos?

Keyla Conceição – Difícil explicar em palavras o que representa a perda dos líderes e anciãos das comunidades, essas perdas têm gerado medo e incertezas sobre como seguiremos daqui pra frente. Se não fosse a ação desse vírus as vidas seriam prolongadas e uma boa liderança duraria muito mais. Foram perdidas histórias, pais, caciques, livros, remédios e bons exemplos…

Lindelvan Costa – Parte de sua história e cultura se perde, pois com a morte do ancião a sabedoria e a história de um povo de discurso oral se vão.

Izaias Silva – O desaparecimento de muitos saberes e experiências não compartilhadas que se foram. Uma biblioteca nunca lida.

Qual sua percepção sobre as ações do Governo Federal para impedir a propagação do coronavirus entre os povos indígenas?

Keyla Conceição – Percebo que o governo deveria atuar melhor para impedir a propagação do corona, porém não tem muito o que esperar, já que a população no geral tem sofrido com esse vírus e nada tem sido feito, não seria diferente com nós indígenas que sempre somos tratados com descaso pelo governo, independente de qual seja o presidente. Por isso foi necessário ajuizar uma ADPF ao STF para que o governo se comprometesse com a criação de um plano de combate ao coronavírus.

Lindelvan Costa – Posso responder por minha região, pois moro aqui. São Gabriel da Cachoeira teve muita assistência, pois muitos foram contaminados, mas para grande número de contaminados houve poucos óbitos, recebemos muitos recursos que foram bem aplicados por meio do Dsei e exército brasileiro. Para mim, houve uma boa assistência.

Izaias Silva – Ao meu parecer as ações do GF tem sido mínimas. Pois desde o início os indígenas não foram vistos como público de risco. Com isto, estes ficaram vulneráveis ao contato externo. Ainda há várias comunidades desassistidas e o vírus se propagando em alta escala. Vários povos indígenas correm sério risco de extinção, uma vez de possuem baixa imunidade ao vírus e o governo federal se faz conivente ao ocorrido.

Como a igreja pode contribuir para o enfrentamento da pandemia do coronavírus e suas consequências entre os povos indígenas?

Keyla Conceição – É bom que a igreja conheça a realidade dos povos saiba da nossa história e saiba que nossa vulnerabilidade, infelizmente, ainda não acabou. Antes que o evangelho seja pregado, existe a necessidade de conhecer e respeitar o modo social e cultural dos povos que irão ouvir as boas novas… Em muito a igreja tem sido falha ao não reconhecer a necessidade de possuirmos um território demarcado, por exemplo, e esses em alguns povos tem sido um empecilho para chegar os tratamentos contra o covid. A secretaria Especial de Saúde Indígena tem alegado que a ausência de demarcação impede o atendimento, e esse é apenas um dos problemas, ainda temos que falar sobre as explorações ilegais que acontecem. Porém, vejo pouca ou nenhuma mobilização das igrejas quanto a essas pautas, um maior envolvimento ajudaria, até mesmo na entrada das boas novas.

Lindelvan Costa – Orando pelos povos, ajudando no necessário. Menos discurso e mais ação. Incentivando a higienização. E proclamando o evangelho que traz paz a alma.

Izaias Silva – Primeiro momento orando, depois compartilhando as informações com a igreja e organizações afins de pensarem formas práticas de assistirem em suas necessidades básicas e urgentes.

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Entrevistados

Keyla Francis de Jesus da Conceição, 28 anos, Indígena (pataxó MG) advogada, mestre em direito, doutoranda em direito no Programa de Pós-Graduação em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).

Lindelvan Costa, indígena da etnia baré e missionário WEC Amazônia/Projeto Amanajé.

Izaias Silva Souza (Hitohã Pataxó). Pastor da Igreja Indígena Pataxó- Carmésia, Minas Gerais. Graduado em Teologia e Mestre em Missiologia.

Foto: Acampamento Terra Livre – Marcelo Camargo.

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