Sete livros para pensar a relação entre a pandemia e meio ambiente

É preciso entender que preservar os ecossistemas é, na verdade, preservar a humanidade.

São muitas as reflexões e os debates sobre as causas e as consequências da pandemia no novo coronavírus, bem como as questões e desdobramentos ambientais. Apresentamos a seguir sete livros que podem ajudar na construção de uma visão mais abrangente e profunda sobre a relação: pandemia e meio ambiente.

Entre as dicas, há e-books gratuitos como “O amanhã não está à venda”, de Ailton Krenak. Para o pensador indígena, não podemos voltar a uma normalidade divorciada da natureza. Em “Pandemia e Agronegócio”, o biólogo Rob Wallace alerta que se não mudarmos a maneira como criamos animais para abate, teremos que lidar com novas formas de vírus cada vez mais mortais.

Merece destaque a obra “Ecologia Humana e Pandemias: consequências da Covid-19 para o nosso futuro”, composta por textos de pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental da UNEB. O tom da coletânia é claro: é preciso entender que preservar os ecossistemas é, na verdade, preservar a humanidade.

Confira abaixo seleção.

O amanhã não está à venda

Autor: Ailton Krenak (E-book grátis)

Há vários séculos que os povos indígenas do Brasil enfrentam bravamente ameaças que podem levá-los à aniquilação total e, diante de condições extremamente adversas, reinventam seu cotidiano e suas comunidades. Em páginas de impressionante força e beleza, Krenak questiona a ideia de “volta à normalidade”, uma “normalidade” em que a humanidade quer se divorciar da natureza, devastar o planeta e cavar um fosso gigantesco de desigualdade entre povos e sociedades. Depois da terrível experiência pela qual o mundo está passando, será preciso trabalhar para que haja mudanças profundas e significativas no modo como vivemos. “Tem muita gente que suspendeu projetos e atividades. As pessoas acham que basta mudar o calendário. Quem está apenas adiando compromisso, como se tudo fosse voltar ao normal, está vivendo no passado […]. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.”

Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência

Autor: Rob Wallace

Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência, de Rob Wallace, defende que os novos vírus que há alguns anos amedrontam o planeta com epidemias e pandemias são, sim, uma criação dos seres humanos. Mas, não, não estamos falando das teorias conspiratórias difundidas pelos robôs de Donald Trump ou Jair Bolsonaro, que responsabilizam laboratórios chineses especializados em guerra biológica pela origem do novo coronavírus.

Para o autor, esses micro-organismos são resultados da maneira como passamos a criar animais para consumo nos últimos quarenta anos. Quem já teve a oportunidade de ir a uma granja ou a uma fazenda de porcos sabe do que estamos falando: milhares (milhões) de animais confinados, muitas vezes impedidos de dormir e comendo 24 horas por dia para engordar — e ir para o abate — cada vez mais rápido. Para quê? Para aumentar os lucros das empresas, claro, que se transformaram em grandes conglomerados.

O número de animais criados para alimentação cresce quase duas vezes mais rápido que a população humana. Aves, vacas, porcos separados pelo produto a ser extraído (carne, ovos, leite), em estabelecimentos onde compartilham raça, idade e sistema biológico. E isso, para a natureza, cuja lei mais importante é o equilíbrio na diversidade, significa uma praga gigante. Uma atração inevitável para outros animais, um banquete para micro-organismos. Um experimento permanente de mutações e contágios extremos.

Rob Wallace vem escrevendo sobre isso há quase vinte anos. Nos textos, o biólogo alerta sobre as origens da Sars, da gripe aviária e da gripe suína, alertando que, se os seres humanos não modificassem a maneira como criam animais para abate, teriam que lidar, no curto prazo, com novas formas de vírus cada vez mais mortais.

Os seres humanos construíram ambientes físicos e sociais, em terra e no mar, que alteraram radicalmente os caminhos pelos quais os patógenos evoluem e se dispersam. Os patógenos, no entanto, não são meros figurantes, golpeados pelas marés da história humana. Eles também agem por vontade própria, com o perdão do antropomorfismo. Demonstram agência”, escreve Rob Wallace na introdução de Pandemia e agronegócio.

Além do conteúdo integral da versão estadunidense, a edição brasileira trará os textos mais recentes do autor e de seus colaboradores sobre o atual surto de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) que, depois de aparecer na província de Hubei, na China, se espalhou pelo planeta, colocou boa parte do mundo em quarentena e espalhou incertezas sobre a maneira como continuaremos vivendo e habitando a Terra.

Ecologia humana e pandemias: consequências da Covid-19 para o nosso futuro

Autores: Juracy Marques e Artur Lima (E-book gratuito)

A obra coletiva reúne produções dos pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (PPGEcoH) da UNEB, é organizada pelos professores Juracy Marques e Artur Lima e destaca temas como As lições do Coronavírus para a ciência, a pandemia da Covid-19 na perspectiva da ecologia médica; A destruição dos ecossistemas como paradigma da civilização moderna; e o papel da Covid-19 no aumento das desigualdades sociais. Além dos pesquisadores da UNEB, o livro conta com produções de cientistas nacionais e internacionais. A obra está disponível no formato e-book e recebe o selo da Editora da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (Sabeh).

Covid-19, meio ambiente & políticas públicas

(E-book gratuito)

Textos de economistas escritos para serem lidos não apenas pelos pares, mas também por não-economistas, leigos interessados em caminhos alternativos ao ajuste fiscal obsessivo e concentrador de renda que dominou a política econômica recente no Brasil e em vários países do mundo, forçados a adotar a “austeridade”. Os textos incorporam também saudável visão ambiental. E é bom que se registre que esta crise tem uma questão ambiental de origem. Como destaca Rodrigo Abreu Carvalho, todas as pandemias recentes são zoonoses, isto é, doenças infecciosas que têm origem no contato dos seres humanos com outros animais. Principalmente, zoonoses como do covid-19, que tem origem na vida selvagem, ou silvestre. Como anota Camila Rizzini Freitas, em outro artigo da coletânea, esses surtos epidêmicos estão relacionados à perda de habitat naturais e à redução da diversidade biológica decorrentes do avanço desordenado do mundo construído sobre o mundo natural, do desmatamento, da caça e do manejo inadequado de animais silvestres. O contato com esses animais se multiplica. No organismo deles, os vírus estão em estado de equilíbrio. Quando encontram um organismo exótico como o nosso, adaptam-se e, na mutação evolutiva, tornam-se letais. As pandemias não são produtos da natureza, são produtos da ação humana predatória sobre a natureza. Portanto, nada mais adequado do que, na discussão sobre a pós-pandemia global, na reconstrução econômica global que se fará necessária, do que pensar alternativas econômicas para um novo projeto econômico, menos desigual e de baixo carbono, que mude os termos da relação da sociedade humana com os ecossistemas naturais.

História das Epidemias

Autor: Stefan Cunha Ujvari

Da Antiguidade até os dias de hoje, as epidemias assombram o ser humano. Chegam sorrateiras e se instalam causando pânico e destruição. A desinformação impera e, não raro, demora-se a descobrir como a doença se propaga e o que fazer para dominá-la. A famosa peste negra matou cerca de um terço da população europeia na Idade Média. De lá para cá, muita coisa mudou. Se por um lado a Medicina evoluiu, por outro, vivemos cada vez mais aglomerados em grandes cidades, viajando muito mais pelo planeta, o que torna a situação mais dramática e difícil de controlar. O infectologista Stefan Cunha Ujvari trata, neste livro fascinante e atualíssimo, das epidemias e pandemias mais marcantes da nossa história. Como a humanidade conviveu com essas doenças? Qual a importância das primeiras vacinas e como elas surgiram?

Na batalha contra o coronavírus, faltam líderes à humanidade

Autor: Yuval Noah Harari (Ebook Kindle gratuito).

O autor best-seller de Sapiens e Homo Deus faz uma defesa da cooperação entre os povos e nações no combate às pandemias e a outros males. O historiador israelense Yuval Noah Harari argumenta neste artigo que muitas pessoas culpam a globalização pela epidemia do coronavírus e afirmam que o único jeito de evitar novos surtos dessa natureza seria desglobalizar o mundo. Contudo, embora uma quarentena temporária seja essencial para deter esses surtos de doença, o isolacionismo prolongado entre as nações conduzirá ao colapso econômico sem oferecer qualquer proteção real contra doenças infecciosas. Muito pelo contrário. O verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação.

Viralizando: Como os vírus mudaram a história e quais são os desafios para combatê-los

Um texto elucidativo sobre os agentes infecciosos que intrigam os cientistas e são responsáveis pelas grandes pandemias da história: os vírus. Capítulo extraído do livro Contágio, publicado originalmente em 2012. Reconstituindo desde os primeiros estudos para tentar definir o que são os vírus até os desafios atuais dos cientistas para criar vacinas e combatê-los, este capítulo oferece um retrato completo desses agentes infecciosos. David Quammen diferencia os tipos de vírus, como são transmitidos e explica por que alguns são mais nocivos que outros. Este capítulo integra Contágio, livro assustadoramente antecipatório que investiga as infecções que, por meio do processo conhecido como “spillover”, começam no reino animal e migram para os humanos, causando as grandes pandemias da história.

Amazônia: Entre a crise e a teologia

Autora: Angela Maringoli (e-book grátis)

Se o mundo que nos cerca foi uma obra divina, e Deus colocou a Criação aos nossos cuidados, nos legando o papel de mordomos/cuidadores dessa obra, como explicar e entender as nossas ações que destroem essa herança comum? A resposta a estas perguntas tem um quê de irracionalidade e contradição que, usando os conceitos da Teoambientologia (MARINGOLI, 2019), a autora tenta responder.

Nota: Publicação atualizada em 12/12, às 11:35, com acréscimo da obra Amazônia: Entre a crise a teologia.

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