Evangélicos e meio ambiente: os avanços e o legado d’A Rocha Brasil

Foto: A Rocha Internacional, Brasil, Peru e ex-Ministra do Meio Ambiente

Entrevista com Marcos Custódio, fundador, primeiro presidente e Diretor Executivo d’A Rocha Brasil (parte 1)

Em outubro de 2020, a organização evangélica de maior expressão nacional voltada para questões ambientais, A Rocha Brasil, comunicou oficialmente o encerramento das atividades no país. Segundo a diretoria, a crise financeira foi o principal motivo para o fechamento da organização: “Tínhamos planos, projetos, pessoas mobilizadas, mas nos faltava recurso financeiro para as atividades. Após alguns anos lutando para nos manter em atividade, reconhecemos que era preciso parar.”

A Rocha Brasil iniciou seus trabalhos em 2006, tendo como principal objetivo conservar a natureza, promover a educação ambiental e a mobilização social nas igrejas evangélicas, capacitando pastores, missionários, educadores e líderes comunitários para se envolverem de forma prática nas questões socioambientais. A Rocha Brasil fazia parte d’A Rocha Internacional, que continua com atividades de 19 países. No Brasil, a organização possuía um blog com conteúdos hospedados no Portal Ultimato, mas foi desativado após o encerramento das atividades.

Para compreender um pouco dos avanços da igreja evangélica brasileira nas questões ambientais nos últimos anos, conversamos com Marcos Custódio, fundador, primeiro presidente e Diretor Executivo d’A Rocha Brasil. Ele é especialista em Sustentabilidade, pela Fundação Getúlio Vargas, mestre em Alimento e Nutrição, pela Universidade Estadual Paulista, e bacharel em Química, pela Universidade de São Paulo. Atualmente trabalha como consultor na área de segurança dos alimentos e apoia o movimento Renovar Nosso Mundo.

Envolvido com questões ambientais no meio cristão desde 2002, Marcos Custódio diz que, apesar da sustentabilidade ter ganhado visibilidade, a igreja evangélica tem pouquíssimas interfaces com esta realidade e com os grandes temas ligados às questões ambientais. Ele conta como A Rocha foi recebida pelas igrejas evangélicas, os desafios enfrentados e o legado da organização. Confira a primeira parte da entrevista.

Conte um pouco de sua trajetória n’A Rocha e como era a aproximação da igreja evangélica com temáticas ambientais naquela época.

Marcos Custódio – Conheci A Rocha por meio da publicação do livro do Peter Harris. No final do livro, havia um endereço de e-mail e comecei a trocar mensagens com a equipe d’A Rocha Portugal. Logo depois, em 2003, participei do Encontro de 20 anos d’A Rocha Internacional, em Portugal. Ali, tive a chance de conhecer Peter Harris, fundador da organização, toda a equipe d’A Rocha Portugal e ainda conhecer John Stott, que era um “patrono” da ONG e preletor principal naquele evento. Neste encontro, surgiu no meu coração o interesse de trazer A Rocha para o Brasil. E foi assim que o movimento começou por aqui. No início, as primeiras conversas que fomos tendo com lideranças evangélicas, era perceptível que este era um tema totalmente novo, que a maioria avaliava ser interessante, até importante. Porém, no final, a maioria ficou indiferente ou não sabia efetivamente o que fazer. Foi surpreendente, nesta época, os inúmeros cristãos (membros de igrejas) que já se interessavam pela temática ambiental, porém não tinham uma perspectiva cristã mais elaborada sobre o porquê é importante “cuidar” da Natureza. Ao descobriram A Rocha, centenas de pessoas começaram a entrar em contato comigo, numa era em que as redes sociais ainda engatinhavam.

Como A Rocha foi recebida pelas igrejas evangélicas brasileiras?

M.C – A Rocha Brasil nunca foi alvo de resistência, talvez muita indiferença, como se o tema fosse importante, mas não uma pauta que se devesse gastar energia no contexto eclesiástico. Desta forma, principalmente de lideranças eclesiásticas e denominacionais, percebeu-se que esta pauta ou este aspecto da Missio Dei não estava no radar deste grupo de pessoas. Porém, no geral sempre fomos bem recebidos, dentro de determinados contextos e situações. Organizações cristãs sociais e igrejas de periferia nos grandes centros urbanos, sempre foram abertas e quiseram conversar com A Rocha Brasil. E, efetivamente, este contexto mudou pouco nos quase 15 anos de existência d’A Rocha no Brasil. Apesar do tema sustentabilidade ter ganhado maior visibilidade a partir das redes sociais, a igreja evangélica tem pouquíssimas interfaces com esta realidade e com os grandes temas ligados as questões ambientais.

Quais foram os maiores desafios que A Rocha encarou durante seus anos de atuação?

M.C – Por ser uma organização cristã trabalhando com uma temática tão pouco conhecida da igreja evangélica, o maior desafio sempre foi encontrar financiamento e apoiadores. O Brasil é um país com uma biodiversidade fantástica e com oportunidades infindáveis para se realizar ações de cuidado da criação e sustentabilidade, porém, para colocar todo este potencial em prática, é necessários recursos econômicos. Num contexto como o brasileiro, em que há uma baixa cultura em doação (principalmente no meio evangélico) e enormes demandas em aspectos sociais, A Rocha Brasil nunca teve um grupo expressivo de doadores e sempre teve dificuldade de “competir” com outras organizações sociais para financiamento de seus projetos. Assim, a grande dificuldade d’A Rocha Brasil foi encontrar apoio das comunidades evangélicas para realizar suas ações e expandir uma “cultura” do cuidado da criação de Deus. Com a crise econômica, ficou praticamente impossível para organização continuar existindo e com a piora do contexto politico e social não houve outra opção que não fosse o encerrar as operações no Brasil.

Quais as maiores conquistas ou frutos que você poderia mencionar do trabalho dA Rocha?

M.C – Acredito que há alguns legados interessantes d’A Rocha Brasil. Primeiro, trazer a temática de cuidado do meio ambiente, com uma perspectiva cristã para a comunidade evangélica brasileira. Sim, havia iniciativas no meio católico e luterano, porém a amplitude do trabalho de sensibilização e conscientização foi algo realmente marcante e significativo. Segundo, formar massa crítica nas mais diversas regiões do país. Ao realizar cursos, palestras e programas, A Rocha propiciou a formação de pessoas que se tornaram multiplicadores, que até hoje retransmitem o conhecimento que receberam e realizam ações socioambientais que auxiliam na mudança de muitas comunidades pelo país. Terceiro, por meio da elaboração de materiais de educação ambiental em português, como artigos, livros e projetos elaborados pela A Rocha Brasil, criou-se condições para que as pessoas pudessem interagir e construir suas interfaces entre fé cristã e meio ambiente. Por último, sensibilizar dezenas de milhares de brasileiros sobre a temática fé cristã e meio ambiente e ver muitos mudarem comportamentos e ações depois de participarem de alguma atividade realizada pela A Rocha Brasil.

>>> Clique aqui para saber um pouco mais da história d’A Rocha no Brasil.

Confira a parte 2 da entrevista.

Comments

comments

Junte-se à campanha

Por favor, acrescente seu nome para receber atualizações por e-mail e fazer parte da campanha!