Evangélicos, meio ambiente e crise climática: desafios e potencialidades

Entrevista com Marcos Custódio (parte 2)

O potencial das comunidades religiosas para fazer a diferença no meio ambiente é um fator reconhecido pelo Programa da ONU Meio Ambiente. A Diretora desse programa, Iyad Abumoghli, afirma que:

“As comunidades religiosas, motivadas por valores espirituais e movidas por uma responsabilidade ética, exercem enorme influência social e política quando se trata de promover ações para restaurar os ecossistemas.”

Tomando como referência a narrativa bíblica e a teologia cristã, cada cristão tem a responsabilidade de ser mordomo da criação de Deus. Na perspectiva da ecoteologia, seres humanos são compreendidos como parte da criação e, portanto, devem estabelecer uma relação harmônica com o restante da criação, e não de domínio. Mas entre a teoria e a prática há um grande abismo.

Imagine como seria diferente se os mais de 40 milhões de brasileiros que se declaram evangélicos, segundo o censo do IBGE de 2010, realmente se importassem e cuidassem do meio ambiente. Imagine o que aconteceria se as milhares de igrejas evangélicas mobilizassem seus membros para proteger as florestas, fazer coleta seletiva, reduzir o uso de plástico e o consumo de carne vermelha, fazer compostagem, recusar descartáveis, etc.

O potencial que as igrejas possuem para fazer a diferença é enorme, mas os desafios também são gigantes. É justamente sobre isso que trata a segunda parte da entrevista com Marcos Custódio, fundador, primeiro presidente e Diretor Executivo d’A Rocha Brasil. Ele comenta sobre a dificuldade que a igreja tem de articular e compreender temas do contexto atual e o desafio de preparar as lideranças. Confira o bate-papo.

Comparando o cenário atual com o de quinze anos atrás, você enxerga com pessimismo ou otimismo a forma com que a igreja evangélica brasileira lida com questões ambientais?

Marcos Custódio – A igreja evangélica brasileira tem dificuldades em encontrar caminhos saudáveis para lidar com os diversos temas do contexto atual. Enquanto os evangélicos não se aplicarem mais em conhecer, criar massa crítica que reflita de forma profunda o nosso contexto, as questões ambientais jamais serão um referencial de ação. Sem uma estruturação focada em estudo e reflexão da realidade que nos cerca e um planejamento organizado de ações estratégicas, haverá poucos cristãos evangélicos (lideranças evangélicas) em condições de avaliar que a temática ambiental deva fazer parte da Missio Dei e da práxis cristã evangélica. Neste sentido, sou pessimista, pois há um desafio gigantesco de preparo de lideranças e preparar bem as novas lideranças é uma enorme fragilidade da igreja evangélica atual.

A igreja pode dar alguma contribuição para reverter ou minimizar a crise climática e o aquecimento global? Se sim, como?

M.C – A igreja cristã é um dos maiores movimentos religiosos atualmente no mundo, ela mobiliza bilhões de pessoas, em toda parte do planeta, a se encontrarem regularmente e realizar atividades que transformam significativamente a sociedade. Se pudéssemos canalizar uma parte desta devoção, desta prática, com pequenos e assertivos atos de cuidado da criação, teríamos mudanças reais e significativas na igreja e na sociedade. A fé cristã é, historicamente (e espiritualmente), capaz de transformar a vida e o “coração” dos indivíduos e da sociedade, porém, para isto precisamos nos focar nesta temática e colocá-la como parte de nossa práxis cristã. No Brasil, a igreja evangélica possui uma enorme penetração na região Amazônica, se estas comunidades fossem, de forma inclusiva, colaborativa e comunitária “empoderadas” a cuidar da floresta, a serem os guardiões de seus recursos e a utilizá-los de forma sustentável, teríamos uma mudança profunda em nossa relação com o meio ambiente. Neste processo eles teriam acesso a programas de geração de renda, acesso a saúde e educação e, desta forma, haveria uma melhor relação com a floresta. As igrejas urbanas precisam entender seu papel mobilizador para mudar e melhorar as condições socioambientais em suas cidades, participar de forma efetiva com atividade e ações que podem mostrar como os cristãos efetivamente “cuidam” da criação de Deus dentro do espaço urbano.

Quando o assunto é meio ambiente, os maiores empecilhos para uma atuação das igrejas vem de dentro do próprio movimento ou de fora?

M.C – Uma parte significativa da igreja evangélica é “templocêntrica”. Nossas ações acabam sendo voltadas para um ativismo religioso focado em dar maiores experiências para nossos membros/clientes. Assim, sobra pouco tempo/recursos para pensar fora do espaço religioso. Perdemos o foco em outros aspectos de nossa Missio Dei, pois nossa ação passou a ser apenas dentro do espaço das quatro paredes. Analiso que os empecilhos mais significativos são internos, e estão ligados principalmente a nossa miopia sobre a realidade que nos cerca, devido a falta de um debate mais aprofundado da Bíblia e da complexidade do mundo atual. Há necessidade de mais reflexão teológica sobre a ação transformadora da igreja e isto limita nossa capacidade de interagir e intervir no contexto em que vivemos. Neste contexto, acredito que o desafio seja encontrar cristãos que tenham esta visão da Missio Dei e construir caminhos e alternativas que possam florescer dentro das igrejas em tempo futuro.

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Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista.

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