Recursos hídricos e os desafios para a igreja

A missão profética de democratizar o acesso à água, a falsa noção de abundância hídrica no Brasil e a conexão espiritual do povo indígena Terena com as fontes do precioso líquido

O que uma jovem ativista climática de São Paulo, um pastor terena do Mato Grosso do Sul, um pastor sertanejo de Pernambuco e uma pesquisadora em recursos hídricos do Pará tem a nos dizer sobre o uso da água? Quais são os desafios para a igreja evangélica brasileira sobre esta temática?

Essas perguntas nortearam o bate-papo da live “Recursos hídricos e os desafios para a igreja”, promovida pelo Grupo de Trabalho Água e Energia Limpa, do movimento Renovar Nosso Mundo. A atividade aconteceu dia 22 de março – Dia Mundial da Água.

A live foi mediada por Calebe Rodrigues, engenheiro ambiental, agroflorestor sintrópico  e membro do movimento Renovar Nosso Mundo e Nós na Criação, Núcleo BH. A conversa contou com a participação de Amanda Costa – de São Pauloa/SP, formada em Relações Internacionais, fundadora do PerifaSustentavel, colunista da Agência Jovem de Notícias e mobilizadora de redes do Youth Climate Leaders; Jader Jorge de Oliveira – de Aquidauana (MS), pastor, índio da tribo terena, presidente da Missão Indígena Uniedas (MIU), bacharel em Teologia e pós graduado em Filosofia da Religião; Pamella Carneiro – de Belém/PA, química Industrial (UFPA), mestranda em Físico-química (UNICAMP), responsável Técnica em qualidade da água em Belém-PA, líder do grupo de química e biologia da ABC2 (Associação Brasileira de Cristãos na Ciência); Valdeban Alves de Almeida – Santa Teresinha/PE, pastor, agricultor, presidente da Associação Rural da Comunidade Freire e membro do Conselho de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) do município.

Democratizar o acesso à água: uma missão profética

Após dar boas-vindas, o mediador citou os 10 Direitos Universais da Água. Em seguida, Amanda Costa fez sua fala. A jovem tem como missão mobilizar outros jovens para mudar a realidade socioambiental das periferias. Ela comenta que, às vezes, a questão climática é vista com desconfiança pela igreja. Uma estratégia de sua atuação consiste na busca de diálogos ecumênicos, articulando outras expressões religiosas e diferentes olhares sobre a crise climática. Amanda explica que a base periférica precisa se apropriar de conceitos socioambientais para transformar o mundo através de ações pontuais e eficientes. Segundo ela, infelizmente, a igreja não está articulada para entregar essas transformações socioambientais. Mas a jovem afirma que pregar o reino inclui combater as mudanças climáticas e que democratizar o acesso à água é uma missão profética.

Fontes de água: conexão com a ancestralidade

O pastor Jader Oliveira falou sobre o protagonismo indígena, a mobilização dos povos Terenas, e explicou como a água é vista pelo povo Terena, como “uma perfeita conexão com a ancestralidade da etnia”. O pastor comentou que o povo Terena costuma mapear áreas, nomeá-las e fazer uso sustentável. Isso explica a vivência muito alinhada dos Terena com os lugares e a dimensão física (recursos naturais), como parte da tradição espiritual.

Jader explica que o conhecimento ancestral é comunicado pelos mais sábios através da oralidade, como uma maneira de agradecer pela conexão com a Mãe Terra. Ele destaca que a etnia enfrenta problemas, como o conflito entre a reserva da etnia e as áreas exteriores e comprometimento de abastecimento de poços, que estão secando por conta da pressão externa. O pastor enfatiza que é importante democratizar o acesso à água para promoção de uma vida digna, pois a saúde é um direito básico de todos. Ele alerta dizendo que o desmatamento e a poluição são gravíssimos problemas e que podem comprometer o direito à vida digna. Ele acrescenta: “Os rios do Mato Grosso do Sul estão muitíssimo poluídos. Até mesmo o aquífero Guarani está ameaçado. Lixo, assoreamento e uso irresponsável dos recursos naturais estão destruindo lugares considerados sagrados pela ancestralidade Terena.”

Uma igreja de portas abertas para o mundo

O pastor Valdeban Almeida iniciou sua fala citando o evangelho como mensagem de esperança e luta. Ele relatou como a sua comunidade, Vila do Espírito Santo, está ameaçada pela poluição hídrica. Diante disso, o pastor promoveu diversas ações para trazer recursos hídricos para a comunidade, cavando cisternas e perfurando poços. Valdeban comenta que muitas igrejas não enxergam a luta ambiental como espiritual, enquanto que no contexto bíblico Jesus está mais nas cidades do que nos templos, o que, segundo o pastor, comprova a necessidade de se fazer uma igreja de portas abertas para o mundo.

Água de sobra no Brasil. Será?

A última fala foi de Pamella Carneiro que estuda a situação hídrica do Brasil. A jovem pontua que, infelizmente, o Brasil tem uma falsa percepção de abundância, na verdade, nosso país pode enfrentar uma crise hídrica, afirma Pamella. Ela explica que temos muito acesso à água com sal e pouco acesso à água potável, e que ter água disponível não significa potabilidade ou justiça hídrica.

Pamella mencionou que a região norte enfrenta uma perigosa desigualdade hídrica, pois somente 57% das pessoas têm acesso à água potável. Há uma relação integrada entre água, questão climática, tratamento de esgoto e água potável, comenta a estudiosa. De acordo com ela, a pandemia do novo coronavírus escancara as dificuldades e a desigualdade hídrica. Pamella diz que, se o Estado não chega na comunidade, a igreja pode assumir o protagonismo e mobilizar pessoas para garantir o direito de acesso à água, cavando poços, por exemplo. Ela conclui afirmando que a teologia cristã fornece recursos para articular a fé com a prática para um uso sustentável dos recursos naturais.

Progresso científico e desenvolvimento sustentável

O progresso tecnológico e cultural (uso da tecnologia), que distingue seres humanos de animais, gera trabalho e impacto ambiental. A construção de uma casa, por exemplo, gera empregos, consome recursos ambientais e tempo. Os seres humanos, escravos da tecnologia, desperdiçam boa parte do seu tempo de vida em trabalhos degradantes e, nessa caminhada perversa, destroem a natureza praticando uma economia que consome vidas humanas e destrói a casa comum.

Na contramão deste sistema, a sabedoria da ancestralidade indígena compreende natureza, trabalho, humanidade e tempo como um todo integrado. Diante disso, se impõe um desafio: Como as pessoas podem utilizar a tecnologia para atender autênticas necessidades humanas, poupar trabalho, ter mais tempo para o descanso e impulsionar uma economia que conserva recursos naturais?

Assista a live na íntegra:

*Texto colaborativo, produzido por Felipe Gruetzmacher e Phelipe Reis.

Foto do topo: Água foto criado por wirestock – br.freepik.com

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