Urbanização e ecologia

“Desfrute deste lugar, porque não vai ficar muito tempo assim. Tudo isso vai mudar. Vai ser absorvido pela cidade”.

Por René Padilla

Paisagismo para espaços urbanos e arranha-céus (Lush), Cingapura, 2019.

Um dos fatores que mais afetam o meio ambiente é, sem margem de dúvida, a urbanização. Ela nos afeta do ponto de vista ecológico, mas também afeta a possibilidade de viver em lugares onde se pode desfrutar dos benefícios da criação de Deus.

Em minha própria família, experimentamos esse problema da transformação de um campo aberto em um bairro de uma cidade que cresce, e cresce sem medida. Tenho um irmão que estudou nos Estados Unidos e, depois de se formar, regressou ao Equador, onde havia crescido. Ele comprou um terreno em um lugar aberto, perto de uma pequena aldeia indígena, Sangolquí, cuja população se dedicava a fazer tecidos que depois eram vendidos na cidade. Sangolquí dependia em termos econômicos desse negócio com tecidos, e era conhecida como um lugar de turismo, onde especialmente os visitantes de outros países vinham comprar esses tecidos famosos por suas estampas incas, a preços módicos. A aldeia fica a certa distância do aeroporto de Sucre, na rota que os aviões tomam para aterrissar.

Ali meu irmão investiu para criar um lugar muito bonito, a poucos quilômetros de Sangolquí. Ele plantou árvores frutíferas e deu ao “sítio” o nome de Cabanas. Alguns cidadãos equatorianos de posses seguiram seu exemplo. Ele fez melhorias para aproveitar melhor a natureza, como também fizeram os outros que podiam comprar mais ou menos um hectare de terra. Pareceu-nos ser uma ideia excelente para quem prefere estar perto da capital, mas não morar numa cidade muito populosa.

Nunca me esquecerei da sua surpresa com o que disse minha esposa Caty, agora falecida, numa visita que lhe fizemos. Ele nos mostrou o lugar e falou das grandes vantagens de morar ali. Ele se deleitou em nos mostrar seu pequeno paraíso: algumas poucas casas em volta, árvores e, no caso do meu irmão, um pequeno lago com patos. O lugar era paradisíaco. Caty então fez esta observação: “Desfrute deste lugar, porque não vai ficar muito tempo assim. Tudo isso vai mudar. Vai ser absorvido pela cidade. Já aconteceu em muitos lugares, é só uma questão de tempo”. Meu irmão a escutou, mas não deu muito crédito às suas palavras. Pouco tempo depois, porém, escreveu-me para dizer que Caty tinha razão. A “profecia” tinha se cumprido, ao custo dos benefícios do seu pequeno paraíso.

Com o passar do tempo, Sangolquí foi sendo absorvida pela cidade, com mudanças ecológicas inesperadas como consequência. Pouco a pouco as árvores deixaram de abrigar os pássaros que ali vinham fazer seus ninhos e pousar em seus galhos; nem serviam mais de refúgio para os insetos e pequenos animais que buscavam ficar longe da grande cidade. Perto da propriedade do meu irmão agora passa uma estrada pela qual transitam os caminhões que levam mercadorias para a cidade, cada vez maior, poluindo o ar com barulhos, odores e emissões de fumaça. Os aviões precisam começar a descida bem mais longe do aeroporto. Além disso, o imposto territorial subiu drasticamente, e com o tempo desapareceram as pequenas fábricas caseiras de tecidos, perdendo-se a experiência acumulada desde os incas na confecção daquelas estampas pelos moradores da aldeia.

Esse fenômeno está se repetindo ao redor do mundo. Restam cada vez menos espaços naturais onde os moradores podem desfrutar dos benefícios da criação de Deus e viver em maior harmonia com a natureza.

Traduzido por Hans Udo Fuchs.

René Padilla é fundador e presidente da Rede Miqueias, e membro-fundador da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Fundação Kairós. É autor de Missão Integral – O reino de Deus e a igreja e Repensando a Missão na Igreja Local. Acompanhe seu blog pessoal: kairos.org.ar.

Nota: Texto publicado originalmente na revista Ultimato, edição 387. Reproduzido com autorização.

Foto do topo: Paisagismo para espaços urbanos e arranha-céus (Lush), Cingapura, 2019. Agência: Ashden. Disponível em climatevisuals.org.

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